Saneamento tributário é a revisão da classificação fiscal de cada produto do cadastro: NCM, CEST, situação tributária e alíquotas, conferidos e corrigidos para que a nota saia certa. O ponto de partida é quase sempre o NCM, o código de oito dígitos que diz o que é o produto. Quando ele está errado, todo o resto do cálculo fiscal herda o erro.
Em uma loja com dois mil itens, ninguém confere NCM um por um. O código vem copiado da nota do fornecedor, de um produto parecido ou de um padrão que o sistema aplicou. Funciona até o dia em que a nota é rejeitada, o contador encontra substituição tributária paga sem necessidade ou, a partir de 2027, o produto paga a alíquota cheia de IBS e CBS quando deveria ter redução.
Este artigo explica o que é o NCM, onde o NCM errado custa dinheiro, de onde vêm os erros e como fazer o saneamento tributário em lote, com o contador e sem parar a loja. Ele aprofunda um ponto do guia sobre a reforma tributária no comércio: com a reforma, o cadastro de produtos passou a decidir quanto cada item paga.
O que é NCM e como o código é montado
NCM é a Nomenclatura Comum do Mercosul, a lista que dá a cada mercadoria um código numérico único. Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai usam a mesma lista desde 1995. Ela toma por base o Sistema Harmonizado (SH), mantido pela Organização Mundial das Alfândegas: os seis primeiros dígitos vêm do SH e os dois últimos são definidos pelo Mercosul. A Receita Federal explica a estrutura e indica a consulta oficial, a NCM on-line do sistema Classif.
O código vai do geral para o específico. Um refrigerante, por exemplo, fica em 2202.10.00:
| Nível | Dígitos | No exemplo |
|---|---|---|
| Capítulo | 22 | Bebidas, líquidos alcoólicos e vinagres |
| Posição | 2202 | Águas e outras bebidas não alcoólicas adicionadas de açúcar ou aromatizadas |
| Subposição | 2202.10 | Águas adicionadas de açúcar ou aromatizadas |
| Item e subitem | 2202.10.00 | O código de oito dígitos que vai na nota |
O NCM não diz quanto o produto paga. Ele diz o que o produto é, e as regras fiscais se penduram nele: substituição tributária do ICMS, PIS e Cofins concentrados no fabricante, IPI e, com a reforma, as reduções de IBS e CBS. Errar o NCM é errar a premissa de todas essas contas.
Onde o NCM errado custa caro
- Nota rejeitada no caixa. A SEFAZ confere o NCM de cada item contra a tabela oficial. Código que não existe volta como Rejeição 778: Informado NCM inexistente, e a venda fica sem nota até alguém corrigir o cadastro. A tabela muda ao longo do ano por resoluções do Gecex, que alteram a Resolução Gecex nº 272/2021, então um código que valia pode deixar de existir.
- Substituição tributária paga sem necessidade, ou deixada de pagar. O CEST e a lista de produtos sujeitos a ICMS-ST são definidos por NCM. Com o código errado, a loja recolhe ST de um produto que não tem, ou vende sem ST um produto que tem, e o segundo caso vira autuação com multa e juros.
- PIS e Cofins pagos duas vezes. Bebidas frias, cosméticos, autopeças e outros grupos têm PIS e Cofins concentrados na indústria, no regime monofásico, identificados por NCM em lei. Se o NCM do cadastro não está na lista, o sistema trata o produto como comum e a loja paga de novo um imposto que o fabricante já pagou.
- Imposto errado com a reforma tributária. A Lei Complementar 214 lista por NCM o que tem alíquota zero de IBS e CBS (cesta básica), o que tem redução de 60% e o que paga a alíquota cheia. O NCM também define o CST e o cClassTrib que cada item da nota passa a levar. Um biscoito cadastrado com o NCM de um refrigerante paga a alíquota do refrigerante.
- Crédito errado para quem compra de você. Na venda para outra empresa, o imposto destacado na NF-e vira crédito do cliente. Classificação errada gera crédito errado, e é você quem recebe a ligação depois.
Nenhum desses custos aparece no dia da venda. Eles aparecem no fechamento do contador, numa fiscalização ou numa nota parada no caixa com fila. Por isso o saneamento tributário costuma ficar para depois, e por isso sai caro.
De onde vem o NCM errado
- Copiado da nota do fornecedor sem conferir. É o atalho mais comum e quase sempre funciona, mas o fornecedor também erra, e às vezes classifica pela atividade dele, não pelo produto.
- Código genérico no lugar do específico. O “outros” de uma posição (o subitem terminado em 90 ou 99) é usado quando existe um código exato para o produto.
- Padrão aplicado a tudo. No cadastro rápido, produto sem tributação recebe o NCM padrão da loja. Um padrão errado se espalha por todos os produtos cadastrados na pressa.
- Produto parecido como modelo. Copiar o cadastro de um iogurte para cadastrar uma bebida láctea parece seguro e não é: são posições diferentes.
- Tabela que mudou. O código estava certo quando o produto foi cadastrado e deixou de existir numa atualização da NCM.
Como fazer o saneamento tributário em lote, em 6 passos
O saneamento tributário não é uma tarde de trabalho. É um mutirão com começo, meio e fim, feito em lotes, sempre com o contador da loja validando a classificação. Este é o roteiro:
- Liste o que está claramente errado. Comece pelos produtos com NCM vazio, inexistente na tabela ou com o NCM padrão da loja. São os que podem travar nota hoje.
- Priorize pelo que mais vende. Em toda loja, uma minoria dos produtos responde pela maior parte das vendas. Corrigir esses primeiro reduz o risco mais depressa. A curva ABC e o relatório de mais vendidos, os mesmos do giro de estoque, mostram por onde começar.
- Agrupe por família. Produtos da mesma família (refrigerantes, xampus, parafusos) tendem a ter o mesmo NCM e a mesma tributação. Uma decisão do contador corrige o grupo inteiro.
- Corrija em lote, não item a item. Selecione a família no sistema e troque NCM, CEST e regra tributária de uma vez. Se a loja usa um saneador automático, que consulta uma base fiscal pelo código de barras e devolve a classificação, rode por lotes pequenos.
- Confira o resultado com o contador antes de seguir. Na primeira rodada, revise uma amostra de cada lote. Saneador ajuda com volume, mas não substitui a pessoa que responde pela escrituração da loja.
- Feche a porta de entrada. O cadastro só fica limpo se o produto novo já entrar certo. Revise a classificação na entrada de nota, antes de o item ir para a prateleira, e repita a lista do passo 1 todo mês.
Uma loja de bairro costuma fazer a primeira passada em algumas semanas, lote por lote, sem parar de vender. O que demora é a primeira vez; depois, o trabalho vira rotina de entrada de nota.
Como o Velo ajuda
No Gestão do Velo, cada passo do roteiro tem uma tela:
- Lista do que está errado. O relatório de produtos com NCM inválido mostra os produtos cujo NCM não existe na tabela, com código, código de barras e nome.
- Correção em lote. Em Produtos › Produtos, o botão Editar múltiplos troca NCM, CEST e Grupo tributário de todos os produtos selecionados de uma vez. O passo a passo está no artigo Alterar grupo e tributação em lote.
- Grupos tributários. A regra fiscal fica no grupo tributário, não no produto: corrigiu o grupo, corrigiu todos os produtos ligados a ele. O grupo já traz os campos da reforma (CST de IBS/CBS e cClassTrib).
- Saneamento pela iMendes (pacote adicional). Com o pacote iMendes, o menu IMENDES › Gerenciador lista os produtos com a situação de cada um (Saneado, Não saneado, Tributação não encontrada) e o botão Sanear Produtos aplica a tributação da base da iMendes aos produtos marcados. O saneamento grava NCM, CEST e a tributação, inclusive IBS, CBS e cClassTrib. A aba Produtos Devolvidos do histórico mostra o que a iMendes recusou por descrição insuficiente, produto sem código ou código de barras inválido. Veja Sanear produtos em lote com a iMendes.
- Porta de entrada. Na entrada de nota por XML, o botão Sanear Todos aplica a iMendes aos itens associados da nota, antes de o produto ir para a venda.
Um cuidado que vale para qualquer saneador: no lote, o Velo grava a tributação encontrada direto, sem comparação produto a produto. A comparação “Atual x Imendes” aparece no saneamento de um produto só. Comece por poucos produtos, confira com o contador e só então aumente o lote. A iMendes também limita o número de consultas por dia, o que é mais um motivo para trabalhar por família. Para ver todas as funções fiscais, conheça o módulo Fiscal do Velo.
Perguntas frequentes
O que é saneamento tributário?
É a revisão da classificação fiscal de cada produto do cadastro (NCM, CEST, situação tributária e alíquotas), para que a nota saia com o imposto certo.
O que acontece se o NCM estiver errado?
Se o código não existir, a SEFAZ rejeita a nota. Se existir mas for de outro produto, a loja pode pagar ICMS-ST ou PIS e Cofins sem necessidade, deixar de recolher o que devia ou, a partir de 2027, aplicar a alíquota errada de IBS e CBS.
Quem define o NCM do produto?
O NCM depende do que o produto é, segundo as regras de classificação da NCM. Na loja, a decisão final é do contador, que responde pela escrituração. O sistema e o saneador ajudam a aplicar a decisão em volume.
Posso usar o NCM que vem na nota do fornecedor?
Pode servir de ponto de partida, mas confira. O fornecedor também erra, e a responsabilidade pela nota que a sua loja emite é da sua loja.
De quanto em quanto tempo devo revisar o NCM?
Faça uma revisão completa uma vez e, depois, confira todo mês os produtos novos e os que aparecem com NCM inválido. A tabela muda ao longo do ano.
O saneamento tributário prepara a loja para a reforma tributária?
É o primeiro passo. Com a reforma, o NCM decide se o produto tem alíquota zero, redução de 60% ou alíquota cheia de IBS e CBS, e também gera o CST e o cClassTrib de cada item.
Cadastro limpo é imposto certo
O NCM errado custa caro porque fica escondido: a venda sai, o caixa fecha e o erro só aparece no fechamento do contador ou numa nota rejeitada. O saneamento tributário traz o problema para a frente, em lotes, começando pelos produtos que mais vendem. Feito uma vez e mantido na entrada de nota, ele deixa a loja pronta para as mudanças de 2027. Se o seu sistema não ajuda nesse trabalho, o guia de como escolher um software de gestão para o seu comércio mostra o que pedir.