Saneamento tributário: por que o NCM errado custa caro e como corrigir em lote

Por Time Velo10 min de leitura

Saneamento tributário é a revisão da classificação fiscal de cada produto do cadastro: NCM, CEST, situação tributária e alíquotas, conferidos e corrigidos para que a nota saia certa. O ponto de partida é quase sempre o NCM, o código de oito dígitos que diz o que é o produto. Quando ele está errado, todo o resto do cálculo fiscal herda o erro.

Em uma loja com dois mil itens, ninguém confere NCM um por um. O código vem copiado da nota do fornecedor, de um produto parecido ou de um padrão que o sistema aplicou. Funciona até o dia em que a nota é rejeitada, o contador encontra substituição tributária paga sem necessidade ou, a partir de 2027, o produto paga a alíquota cheia de IBS e CBS quando deveria ter redução.

Este artigo explica o que é o NCM, onde o NCM errado custa dinheiro, de onde vêm os erros e como fazer o saneamento tributário em lote, com o contador e sem parar a loja. Ele aprofunda um ponto do guia sobre a reforma tributária no comércio: com a reforma, o cadastro de produtos passou a decidir quanto cada item paga.

O que é NCM e como o código é montado

NCM é a Nomenclatura Comum do Mercosul, a lista que dá a cada mercadoria um código numérico único. Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai usam a mesma lista desde 1995. Ela toma por base o Sistema Harmonizado (SH), mantido pela Organização Mundial das Alfândegas: os seis primeiros dígitos vêm do SH e os dois últimos são definidos pelo Mercosul. A Receita Federal explica a estrutura e indica a consulta oficial, a NCM on-line do sistema Classif.

O código vai do geral para o específico. Um refrigerante, por exemplo, fica em 2202.10.00:

Nível Dígitos No exemplo
Capítulo 22 Bebidas, líquidos alcoólicos e vinagres
Posição 2202 Águas e outras bebidas não alcoólicas adicionadas de açúcar ou aromatizadas
Subposição 2202.10 Águas adicionadas de açúcar ou aromatizadas
Item e subitem 2202.10.00 O código de oito dígitos que vai na nota

O NCM não diz quanto o produto paga. Ele diz o que o produto é, e as regras fiscais se penduram nele: substituição tributária do ICMS, PIS e Cofins concentrados no fabricante, IPI e, com a reforma, as reduções de IBS e CBS. Errar o NCM é errar a premissa de todas essas contas.

Onde o NCM errado custa caro

  • Nota rejeitada no caixa. A SEFAZ confere o NCM de cada item contra a tabela oficial. Código que não existe volta como Rejeição 778: Informado NCM inexistente, e a venda fica sem nota até alguém corrigir o cadastro. A tabela muda ao longo do ano por resoluções do Gecex, que alteram a Resolução Gecex nº 272/2021, então um código que valia pode deixar de existir.
  • Substituição tributária paga sem necessidade, ou deixada de pagar. O CEST e a lista de produtos sujeitos a ICMS-ST são definidos por NCM. Com o código errado, a loja recolhe ST de um produto que não tem, ou vende sem ST um produto que tem, e o segundo caso vira autuação com multa e juros.
  • PIS e Cofins pagos duas vezes. Bebidas frias, cosméticos, autopeças e outros grupos têm PIS e Cofins concentrados na indústria, no regime monofásico, identificados por NCM em lei. Se o NCM do cadastro não está na lista, o sistema trata o produto como comum e a loja paga de novo um imposto que o fabricante já pagou.
  • Imposto errado com a reforma tributária. A Lei Complementar 214 lista por NCM o que tem alíquota zero de IBS e CBS (cesta básica), o que tem redução de 60% e o que paga a alíquota cheia. O NCM também define o CST e o cClassTrib que cada item da nota passa a levar. Um biscoito cadastrado com o NCM de um refrigerante paga a alíquota do refrigerante.
  • Crédito errado para quem compra de você. Na venda para outra empresa, o imposto destacado na NF-e vira crédito do cliente. Classificação errada gera crédito errado, e é você quem recebe a ligação depois.

Nenhum desses custos aparece no dia da venda. Eles aparecem no fechamento do contador, numa fiscalização ou numa nota parada no caixa com fila. Por isso o saneamento tributário costuma ficar para depois, e por isso sai caro.

De onde vem o NCM errado

  1. Copiado da nota do fornecedor sem conferir. É o atalho mais comum e quase sempre funciona, mas o fornecedor também erra, e às vezes classifica pela atividade dele, não pelo produto.
  2. Código genérico no lugar do específico. O “outros” de uma posição (o subitem terminado em 90 ou 99) é usado quando existe um código exato para o produto.
  3. Padrão aplicado a tudo. No cadastro rápido, produto sem tributação recebe o NCM padrão da loja. Um padrão errado se espalha por todos os produtos cadastrados na pressa.
  4. Produto parecido como modelo. Copiar o cadastro de um iogurte para cadastrar uma bebida láctea parece seguro e não é: são posições diferentes.
  5. Tabela que mudou. O código estava certo quando o produto foi cadastrado e deixou de existir numa atualização da NCM.

Como fazer o saneamento tributário em lote, em 6 passos

O saneamento tributário não é uma tarde de trabalho. É um mutirão com começo, meio e fim, feito em lotes, sempre com o contador da loja validando a classificação. Este é o roteiro:

  1. Liste o que está claramente errado. Comece pelos produtos com NCM vazio, inexistente na tabela ou com o NCM padrão da loja. São os que podem travar nota hoje.
  2. Priorize pelo que mais vende. Em toda loja, uma minoria dos produtos responde pela maior parte das vendas. Corrigir esses primeiro reduz o risco mais depressa. A curva ABC e o relatório de mais vendidos, os mesmos do giro de estoque, mostram por onde começar.
  3. Agrupe por família. Produtos da mesma família (refrigerantes, xampus, parafusos) tendem a ter o mesmo NCM e a mesma tributação. Uma decisão do contador corrige o grupo inteiro.
  4. Corrija em lote, não item a item. Selecione a família no sistema e troque NCM, CEST e regra tributária de uma vez. Se a loja usa um saneador automático, que consulta uma base fiscal pelo código de barras e devolve a classificação, rode por lotes pequenos.
  5. Confira o resultado com o contador antes de seguir. Na primeira rodada, revise uma amostra de cada lote. Saneador ajuda com volume, mas não substitui a pessoa que responde pela escrituração da loja.
  6. Feche a porta de entrada. O cadastro só fica limpo se o produto novo já entrar certo. Revise a classificação na entrada de nota, antes de o item ir para a prateleira, e repita a lista do passo 1 todo mês.

Uma loja de bairro costuma fazer a primeira passada em algumas semanas, lote por lote, sem parar de vender. O que demora é a primeira vez; depois, o trabalho vira rotina de entrada de nota.

Como o Velo ajuda

No Gestão do Velo, cada passo do roteiro tem uma tela:

  • Lista do que está errado. O relatório de produtos com NCM inválido mostra os produtos cujo NCM não existe na tabela, com código, código de barras e nome.
  • Correção em lote. Em Produtos › Produtos, o botão Editar múltiplos troca NCM, CEST e Grupo tributário de todos os produtos selecionados de uma vez. O passo a passo está no artigo Alterar grupo e tributação em lote.
  • Grupos tributários. A regra fiscal fica no grupo tributário, não no produto: corrigiu o grupo, corrigiu todos os produtos ligados a ele. O grupo já traz os campos da reforma (CST de IBS/CBS e cClassTrib).
  • Saneamento pela iMendes (pacote adicional). Com o pacote iMendes, o menu IMENDES › Gerenciador lista os produtos com a situação de cada um (Saneado, Não saneado, Tributação não encontrada) e o botão Sanear Produtos aplica a tributação da base da iMendes aos produtos marcados. O saneamento grava NCM, CEST e a tributação, inclusive IBS, CBS e cClassTrib. A aba Produtos Devolvidos do histórico mostra o que a iMendes recusou por descrição insuficiente, produto sem código ou código de barras inválido. Veja Sanear produtos em lote com a iMendes.
  • Porta de entrada. Na entrada de nota por XML, o botão Sanear Todos aplica a iMendes aos itens associados da nota, antes de o produto ir para a venda.

Um cuidado que vale para qualquer saneador: no lote, o Velo grava a tributação encontrada direto, sem comparação produto a produto. A comparação “Atual x Imendes” aparece no saneamento de um produto só. Comece por poucos produtos, confira com o contador e só então aumente o lote. A iMendes também limita o número de consultas por dia, o que é mais um motivo para trabalhar por família. Para ver todas as funções fiscais, conheça o módulo Fiscal do Velo.

Perguntas frequentes

O que é saneamento tributário?
É a revisão da classificação fiscal de cada produto do cadastro (NCM, CEST, situação tributária e alíquotas), para que a nota saia com o imposto certo.

O que acontece se o NCM estiver errado?
Se o código não existir, a SEFAZ rejeita a nota. Se existir mas for de outro produto, a loja pode pagar ICMS-ST ou PIS e Cofins sem necessidade, deixar de recolher o que devia ou, a partir de 2027, aplicar a alíquota errada de IBS e CBS.

Quem define o NCM do produto?
O NCM depende do que o produto é, segundo as regras de classificação da NCM. Na loja, a decisão final é do contador, que responde pela escrituração. O sistema e o saneador ajudam a aplicar a decisão em volume.

Posso usar o NCM que vem na nota do fornecedor?
Pode servir de ponto de partida, mas confira. O fornecedor também erra, e a responsabilidade pela nota que a sua loja emite é da sua loja.

De quanto em quanto tempo devo revisar o NCM?
Faça uma revisão completa uma vez e, depois, confira todo mês os produtos novos e os que aparecem com NCM inválido. A tabela muda ao longo do ano.

O saneamento tributário prepara a loja para a reforma tributária?
É o primeiro passo. Com a reforma, o NCM decide se o produto tem alíquota zero, redução de 60% ou alíquota cheia de IBS e CBS, e também gera o CST e o cClassTrib de cada item.

Cadastro limpo é imposto certo

O NCM errado custa caro porque fica escondido: a venda sai, o caixa fecha e o erro só aparece no fechamento do contador ou numa nota rejeitada. O saneamento tributário traz o problema para a frente, em lotes, começando pelos produtos que mais vendem. Feito uma vez e mantido na entrada de nota, ele deixa a loja pronta para as mudanças de 2027. Se o seu sistema não ajuda nesse trabalho, o guia de como escolher um software de gestão para o seu comércio mostra o que pedir.

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